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A NEGLIGÊNCIA QUE AFETA OS TRABALHADORES: BRUCELOSE É DIAGNOSTICADA EM TRABALHADORES NA PARAÍBA

Foi publicada, no primeiro semestre deste ano (2026), uma pesquisa que apontou a infecção de 16 trabalhadores por brucelose humana no estado da Paraíba. O estudo — intitulado “Nova área de ocorrência da brucelose humana no Brasil: prevalência sorológica e molecular e fatores de risco associados à infecção por Brucella abortus — foi realizado na Paraíba e avaliou mais de 180 trabalhadores de abatedouros em diversos municípios. Essa foi a primeira vez que o estado registrou casos de infecção por brucelose em humanos.

Além da contaminação dos trabalhadores, a pesquisa também identificou uma falta de conhecimento sobre a doença entre eles: todos os participantes infectados declararam não conhecer a brucelose. Publicada pela revista One Health Outlook, a pesquisa também avaliou a prevalência e os fatores de risco associados à infecção por Brucella abortus em trabalhadores de matadouros.

Em 2024, a Rede Trabalhadores e Covid-19 lançou um informe com a temática Brucelose e Trabalho: uma zoonose negligenciada. O documento também apontou que a doença era pouco conhecida pelos trabalhadores e, mais do que isso, que havia um grande desconhecimento sobre a brucelose entre profissionais de saúde, além de estar totalmente relacionada ao trabalho.

O documento mostrou ainda que, apesar de constar na lista de doenças relacionadas ao trabalho, ela não é considerada uma doença de notificação obrigatório pelo SUS. Sua negligência é reforçada, cada vez mais, pela complexidade de seu diagnóstico. Os sintomas se assemelham aos de doenças mais “conhecidas” e de fácil identificação, o que pode fazer com que a brucelose passe despercebida pelos profissionais responsáveis pela avaliação desses trabalhadores.

Para especialistas em saúde pública, a brucelose humana tem grande impacto do ponto de vista sanitário. Por ser uma doença negligenciada e subnotificada, estima-se que o número de pessoas infectadas seja cinco vezes maior do que o apontado pelos dados oficiais.

No Brasil, a brucelose em bovinos é bastante comum e pode ser transmitida aos seres humanos por meio do contato com animais infectados. Segundo a pesquisa, “isso envolve contato com restos placentários, fetos abortados, líquido amniótico, carne, laticínios e seus produtos e subprodutos”.

Para falar mais sobre essa doença infecciosa, a Rede Trabalhadores e Covid-19 convidou o colaborador do Observatório de Doenças Infecciosas do Trabalho (ODIT) e do Laboratório de Pesquisa Clínica em Doenças Febris Agudas (LaPClinDFA), ambos da Fiocruz, Túlio Mendes, para explicar um pouco mais sobre a infecção e a necessidade de fortalecer a vigilância em saúde nos estados brasileiros, a fim de ampliar a identificação da doença.

 

Rede Trabalhadores e Covid-19: Recentemente, uma pesquisa identificou trabalhadores de abatedouros da Paraíba com testes positivos para brucelose. Como vocês avalia esse resultado e o que ele sinaliza para a Saúde do Trabalhador no Brasil?

Túlio Mendes – Acho uma situação preocupante. Sinaliza que as doenças infecciosas relacionadas ao trabalho, podem impactar muito na atividade laboral

RTEC19 – Embora a brucelose seja conhecida há décadas, ela ainda é considerada uma zoonose negligenciada. Por que isso acontece? O que precisa mudar para que essa doença tenha maior conhecimento público?

TM – No meu ponto de vista, acontece por possuirmos poucos centros de diagnóstico e acompanhamento de brucelose humana no Brasil. A mudança vem com melhor educação em saúde e a integração dos órgãos ligados à saúde animal.

RTEC19 – Além das categorias profissionais citadas no estudo, existem outras que merecem atenção e possam estar expostas a essa zoonose?

TM – Viajantes, laboratoristas, médicos veterinários, trabalhadores rurais e pessoas que vivem em áreas com casos de brucelose animal

RTEC19 – Na prática, como costuma ocorrer a contaminação durante o trabalho?

TM – Através do contato direto ou indireto com o material biológico. Vísceras, consumo de leite cru e de produtos lácteos contaminados com a bactéria Brucella. Outra forma importante são os acidentes de trabalho com as vacinas de brucelose.

RTEC19 – Muitas vezes, os sintomas da brucelose podem ser confundidos com outras doenças infecciosas. Isso dificulta o diagnóstico entre trabalhadores? Quais outras doenças podem ser confundidas com a brucelose em trabalhadores?

TM – Dificulta muito, ela é conhecida com doença das “mil faces “. As doenças febris de um modo geral.

RTEC19 – Quando um trabalhador recebe o diagnóstico tardiamente, quais podem ser as consequências para sua saúde e como isso impacta o seu trabalho?

TM – O trabalhador pode ficar incapaz de exercer a sua atividade, devido danos neurológicos e articulares principalmente.

 

RTEC19 – Além do uso de Equipamentos de Proteção Individual, quais medidas de prevenção são fundamentais para reduzir a exposição nos ambientes de trabalho?

TM – Treinamento constante dos trabalhadores e informações sobre a doença.

RTEC19 – Que papel têm os empregadores, os serviços de saúde e a vigilância em saúde do trabalhador na prevenção dessa zoonose em trabalhadores?

TM – Os empregadores precisam investir em equipamentos e treinamento, para melhor proteção do seu colaborador.

Os serviços de saúde terem condições de diagnosticar e acompanhar os casos.

A vigilância em saúde do trabalhador treinar pessoas para lidar com as doenças infecciosas relacionadas ao trabalho.

RTEC19 – O que os resultados encontrados na Paraíba nos dizem sobre a necessidade de fortalecer a vigilância da brucelose em outros estados brasileiros? É possível que essa realidade esteja subestimada? Como fazer para que a brucelose seja de conhecimento público para que não ocorra casos de subnotificações e exposição dos trabalhadores?

TM – Os resultados da Paraíba acenderam um alerta, devido ser um estado relativamente pequeno e, teoricamente com melhor condição de controle. Percebemos que a doença está presente. Sim, a própria literatura cita que os dados oficiais sobre a brucelose humana no Brasil possam estar subestimados. Então isso abre uma reflexão sobre o que acontece em estados com grandes áreas e um rebanho bovino grande.

Acredito muito, que a realidade é bem diferente no País. Tornar a doença de notificação compulsória em todo o Brasil, não só em casos de surtos, ter uma rede laboratorial de diagnóstico e capacitação de profissionais de saúde para reconhecer os sinais clínicos e aspectos epidemiológicos da doença, são fatores que podem contribuir para o enfrentamento da brucelose humana no país

Para começar a mudar essa realidade, temos que investir em educação em saúde.

Para ler a pesquisa completa basta clicar aqui

Para baixar o Informe da Rede Trabalhadores e Covid-19 Brucelose e Trabalho: uma zoonose negligenciada clique aqui