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Saúde Única: artigo analisa cursos de formação de sanitaristas no Brasil

O pesquisador do Centro de Estudos do Trabalhadores e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP/Fiocruz), Frederico Perez, publicou o artigo intitulado “Saúde Única e a ‘Agenda 1930’ na Formação de Sanitaristas no País”, que tem como objetivo apresentar como esse tema tem sido abordado e implementado na formação de sanitaristas no Brasil.

O artigo aponta que a expansão da abordagem Saúde Única — conceito que busca integrar as dimensões da saúde humana, animal e ambiental — pode representar um risco de retrocesso para a formação de sanitaristas no Brasil.

Para realizar a análise, o pesquisador examinou currículos e estratégias pedagógicas de cursos de especialização e programas de pós-graduação relacionados à Saúde Única registrados nas plataformas e-MEC, do Ministério da Educação, e Sucupira, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Foram identificados oito cursos de especialização ativos e quatro programas de pós-graduação stricto sensu efetivamente voltados ao tema.

Segundo a análise feita pelo pesquisador, os cursos analisados apresentam forte presença de conteúdos relacionados às ciências biológicas, biomédicas, epidemiologia, métodos quantitativos, diagnóstico laboratorial, saúde animal e medicina veterinária.

Porém, o artigo chama a atenção ao que fica de fora dessa articulação, que contribuiu para o enfrentamento de problemas sanitários complexos. Para o pesquisador, a abordagem Saúde Única tende a privilegiar fatores biológicos e relações entre agentes, hospedeiros e ambientes, e pode deixar em segundo plano os processos históricos e sociais que determinam a ocorrência e a distribuição dos problemas de saúde, já que o estudo apontou que essas competências — políticas públicas, governança, participação social, equidade, comunicação, questões econômicas e desigualdades sociais — aparecem de maneira rasa ou estão ausentes de parte das formações analisadas.

Isso significa que fatores como pobreza, desigualdade, condições de trabalho, relações de poder, políticas públicas e modelos econômicos podem ser tratados apenas como elementos contextuais, em vez de serem compreendidos como determinantes centrais da saúde.

O autor também faz referência às décadas de 20 e 30, em que ocorreram as primeiras formações em Saúde Pública na América Latina, da qual essa questão era fortemente associada ao enfrentamento de doenças infecciosas e tropicais, com ênfase em saneamento, controle de vetores e ações biomédicas. O artigo argumenta que a expansão atual da Saúde Única pode, em determinadas circunstâncias, reproduzir características desse modelo, caso a formação de sanitaristas passe a privilegiar novamente uma visão mais linear de causa e efeito e o enfrentamento de doenças específicas, deixando em segundo plano os determinantes sociais e estruturais da saúde.

Para o pesquisador, o desafio é construir uma abordagem verdadeiramente interdisciplinar, que não apenas reúna diferentes áreas, mas também incorpore questões de justiça social, equidade, participação, território e determinação socioambiental da saúde.

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