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Saúde Única: atividade no Cesteh pontua desafios e contradições do conceito

O Encontro Integrativo do Cesteh do mês de março trouxe para debate um tema que tem ganhado destaque no mundo científico: a saúde única (One Health).Enquanto parte dos especialistas defende o conceito como uma estratégia essencial para enfrentar desafios complexos — como zoonoses, mudanças climáticas e resistência antimicrobiana —, outros alertam para riscos de redução do debate às dimensões biomédicas e para possíveis impactos no Sistema Único de Saúde (SUS). Durante o encontro, os participantes destacaram que a proposta da saúde única parte do reconhecimento de que a saúde humana, animal e ambiental está interligada e exige respostas integradas entre diferentes setores. Marcado por posições divergentes entre pesquisadores, o debate evidenciou que a incorporação da abordagem de Saúde Única (One Health) no Brasil envolve disputas de modelos de saúde e de desenvolvimento, exigindo um diálogo mais aprofundado para que, por exemplo, a saúde do trabalhador não seja invisibilizada nas políticas públicas.

A atividade, coordenada pelo pesquisador do Cesteh, Hermano Castro, contou com a participação do coordenador adjunto da pós-graduação stricto sensu do Instituto Nacional de Infectologia (INI), Rodrigo Caldas, que defende que o conceito de saúde única seja incorporado no Brasil. Segundo Caldas, o principal desafio da abordagem é transformar planos e conceitos em ações concretas nos territórios, fortalecendo a integração entre diferentes setores governamentais e estruturas já existentes, especialmente o SUS. “O conceito começou a ser institucionalizado em 2018, com o Plano Nacional de Combate à Resistência Antimicrobiana, e ganhou maior impulso após a pandemia de COVID-19. Desde então, foram criados grupos de trabalho, um comitê técnico interinstitucional e iniciativas como o Plano Nacional de Uma Só Saúde, atualmente em elaboração. Exemplos históricos e científicos mostram como a integração entre saúde humana, animal e ambiental já contribuiu para avanços na ciência e no controle de doenças”, pontuou o pesquisador.

Por outro lado, em contraponto às colocações de Rodrigo Caldas, também participaram do debate a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, médica sanitarista e do trabalho, Lia Giraldo, e o epidemiologista e professor da Universidade de Brasília (UnB), Heleno Corrêa Filho.

Em sua fala, Lia Giraldo destacou a trajetória histórica até a formulação do conceito de saúde única e os interesses políticos e econômicos associados à sua implementação.  Para ela, essa perspectiva deixa em segundo plano processos sociais mais amplos que influenciam o adoecimento, como as condições de trabalho, os modelos de produção e a exploração ambiental. Nesse sentido, a pesquisadora defende que debates sobre saúde sempre dialogue com a tradição da saúde coletiva latino-americana, especialmente com o conceito de determinação social da saúde, que busca compreender como fatores econômicos, ambientais e laborais se articulam na produção das doenças.

Já o epidemiologista Heleno Corrêa Filho ressaltou que o debate sobre o conceito precisa ocorrer de forma transparente entre as instituições envolvidas. Assim como Lia Giraldo, ele também manifestou preocupação com o contexto político e econômico em torno da proposta. “O problema está nas disputas políticas e nos interesses econômicos que podem orientar sua implementação. O debate precisa ser feito de forma aberta, respeitosa e crítica, envolvendo pesquisadores e trabalhadores de diferentes áreas para garantir que a abordagem realmente fortaleça a saúde pública e o interesse coletivo”, afirmou.

Outra preocupação manifestada por Corrêa Filho diz respeito aos conflitos entre instituições de pesquisa — como a Fundação Oswaldo Cruz — e os interesses do agronegócio, especialmente quando estudos revelam impactos de agrotóxicos e do modelo de produção intensiva sobre a saúde humana e ambiental.

Após as exposições, a função de debatedor ficou a cargo do pesquisador e professor da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), Alexandre Pessoa. Em sua intervenção, ele destacou a necessidade de analisar o contexto histórico do conceito e identificar seus fundamentos teóricos, políticos e epistemológicos, para compreender quais interesses e projetos estão por trás de sua difusão.

Segundo Pessoa, também é importante evitar a busca apressada por consensos nos debates institucionais. Para o pesquisador, o contraditório é parte fundamental do avanço científico e político.

Após as falas dos convidados, a atividade contou com um intenso debate entre os participantes, com posições tanto favoráveis quanto críticas à proposta da saúde única.

Para quem deseja conhecer mais sobre a discussão, a atividade está disponível no canal da ENSP no YouTube e pode ser acessada no vídeo abaixo.