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Paracoccidioidomicose (PCM): a luta de pesquisadores pela inclusão na lista de doenças de notificação compulsória

Um manifesto assinado por diversas instituições e serviços de saúde, universidades e especialistas — entre eles a Fiocruz, a Unifesp e a USP — foi entregue ao Ministério da Saúde solicitando, com urgência, a inclusão da paracoccidioidomicose (PCM) na lista nacional de doenças de notificação compulsória. Considerada uma das principais micoses sistêmicas do país, a doença permanece marcada pelo subdiagnóstico, por falhas de registro e pela ausência de políticas públicas específicas.

O manifesto foi liderado, entre outros, pelo pesquisador Ziadir Coutinho, do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP/Fiocruz), que, junto a outros especialistas, defende a inclusão da doença na lista. Para ele, essa conquista é de suma importância, já que “a paracoccidioidomicose (PCM) é uma das principais micoses sistêmicas do Brasil, responsável por cerca de 80% dos casos registrados no mundo”. A doença — que, quando não tratada, pode ser fatal — afeta principalmente trabalhadores rurais e da construção civil.

Dados reunidos no manifesto indicam uma taxa de mortalidade de 0,5 por milhão de habitantes, além de 3,7 internações por milhão. Parte dos registros é classificada como “blastomicose” em quase metade dos casos oficiais, o que inviabiliza a real dimensão do problema. “Seu diagnóstico é complexo, pois o quadro clínico se confunde com o de diversas outras doenças. O fator de risco mais relevante está relacionado às profissões que envolvem o manejo de solo contaminado. A via pulmonar é a principal porta de entrada da infecção, por meio da inalação de propágulos infectantes suspensos no ar”, enfatizou o pesquisador.

O documento apresenta uma série de recomendações para reorganizar a classificação e a atenção à PCM no país. Além da notificação compulsória, sugere o fortalecimento da rede diagnóstica com testes rápidos e métodos padronizados, o que, segundo o pesquisador, “permitiria a identificação precoce da doença, facilitando o tratamento”. Também são recomendadas a garantia de acesso a medicamentos essenciais, como itraconazol e anfotericina B; a qualificação de profissionais de saúde por meio de cursos; a ampliação das informações disponíveis ao público; e a implementação de políticas que integrem vigilância, pesquisa, assistência e registros epidemiológicos.

O manifesto propõe ainda a articulação entre programas voltados às micoses sistêmicas, tuberculose e HIV/aids, a ampliação de testes laboratoriais avançados, como PCR, e o fortalecimento de ações municipais com apoio social, especialmente voltadas aos trabalhadores. Além disso, o documento alerta para o uso intensivo de antifúngicos agrícolas — como tebuconazol e ciproconazol — que podem favorecer a resistência cruzada e limitar as opções terapêuticas disponíveis.

Desafios da doença

Um dos principais desafios no enfrentamento da paracoccidioidomicose é o atraso no diagnóstico e a complexidade do tratamento, que pode durar de um a dois anos ou mais. Durante esse período, os pacientes necessitam de acompanhamento frequente nas unidades de saúde para monitorar a evolução da doença, a efetividade terapêutica, possíveis efeitos adversos, recidivas e o controle de comorbidades.

A resposta ao tratamento é lenta e gradual e, em muitos casos, os pacientes vivem a longas distâncias dos serviços de saúde, o que dificulta o acesso e exige o uso de diferentes meios de transporte. Esse cenário amplia as interrupções no trabalho e favorece o surgimento de sequelas graves.

Para além dos desafios, o pesquisador destacou avanços considerados prioritários na vigilância da doença. “A PCM é um agravo infeccioso fúngico ocupacional negligenciado entre os negligenciados. Esperamos melhorar sua visibilidade por meio da qualificação dos dados, da inclusão de casos suspeitos e confirmados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e de sua elevação à categoria de doença de notificação compulsória. Seu universo é desconhecido; apenas o tangenciamos por meio de casuísticas esparsas e assistemáticas de alguns serviços”, salientou.

Nas últimas décadas, o campo brasileiro passou por profundas transformações, com a concentração de terras em grandes propriedades rurais e a expansão do agronegócio voltado à produção em larga escala de commodities para exportação. Esse modelo intensificou o uso de maquinário agrícola e de agroquímicos, especialmente agrotóxicos. O uso indiscriminado desses produtos pode contribuir para o desenvolvimento de resistência antifúngica, dificultando ainda mais o tratamento das micoses.

PCM na mídia

No início do ano, a paracoccidioidomicose ganhou repercussão na mídia nacional com uma matéria publicada no jornal Metrópoles, que aponta um custo com a doença de nove milhões de reais ao Sistema Único de Saúde (SUS) ao longo de nove anos. A reportagem — disponível no link — destaca questões abordadas no manifesto, como a negligência de políticas públicas de saúde voltadas à doença e o fato de ela não integrar a lista de notificação compulsória.

A matéria traz ainda o depoimento em vídeo de um trabalhador que contraiu a doença e enfrentou dificuldades até obter a confirmação do diagnóstico.